Feira Virtual: O melhor mel do mundo tá na internet

Foto Cristina Gallo FAASC

Santa Catarina é um dos estados que mais se dedica na produção de mel e abelhas. Daqui sai o mel que já foi considerado o melhor do mundo. Seja dos poucos apicultores de Piçarras, que produzem cerca de 100 quilos de mel por anos, ou nos picos mais frios da Serra, onde 60 mil colmeias de aluguel espalham o pólen pelos pomares de maçã, a atividade é um dos motores da economia catarinense e está presente em cerca de 98% dos municípios.

Este ano, por conta da pandemia, a tradicional Feira do Mel, que reúne produtores de todo o estado em Florianópolis, não será realizada no formato que conhecemos, com as tendas, as provas e o calor humano em pleno inverno.

Mas para não deixar a clientela sem o produto, já que muitos se programam para compras de mel e derivados na feira, a Federação das Associações de Apicultores e Meliponicultores (FAASC), vai realizar pela primeira vez a feira em formato virtual.

Na entrevista desta semana, o presidente da FAASC, Ivanir Cella, que também é técnico da Epagri, conta um pouco sobre a ideia e sobre como esse mercado riquíssimo em saúde, e que pode auxiliar inclusive em outras culturas, está organizado no estado.

[Pelo Estado] – Como foi essa decisão de realizar a primeira Feira do Mel virtual da história?
Ivanir Cella –
Inicialmente estava prevista para ser realizada no começo de junho, mas acabou adiada para a segunda quinzena de julho, mas chegando mais próximo a gente viu que era impossível realizar essa feira de forma presencial. São em torno de 50 mil pessoas que passam pelo local, provam os óleos, méis, e adquirem os produtos. E há muitas pessoas de idade, vendemos muito mel para pessoas idosas. Então, dificilmente nós conseguiríamos fazer dessa forma presencial. Foi então que decidimos fazer da forma virtual, até como um exercício para os produtores se adequarem a essa nova modalidade de venda que vem crescendo, através da internet.
E também porque muitos consumidores esperam o ano todo por essa feira. Existe uma confiança, uma aproximação entre os produtores e clientes, e tem gente que aguarda a Feira do Mel para todo ano fazer sua compra com o produtor de sua preferência. Os méis possuem, de fato, características próprias de acordo com a região, a florada, o produtor.

[Pelo Estado] – Como funciona, o produtor fica na sua região e a Federação que faz a venda?
Ivanir Cella – 
O consumidor que desejar adquirir o mel vai acessar o site, que é um site de apresentação, não de vendas (http://www.faasc.com.br/feiradomel), lá teremos os preços tabelados do mel, que tem preço tabelado de R$ 25 o quilo do multifloral, no mercado se paga em média mais que R$ 30, ele pode escolher o produtor e o produto que quer e vai ter todas as opções ali na tela. A compra é feita diretamente com o produtor, cada empresa tem seu catalogo e as formas de entrega.
Esse ano a Feira também será mais longa, 30 dias, e também vai contar com aqueles produtores menores que normalmente não têm condição de vir para a feira em Florianópolis, pagar hotel e se manter aqui. Esse também é um objetivo da feira deste ano.

[Pelo Estado] –  A produção catarinense de mel sempre gira em torno da média de seis mil toneladas por ano. Esse valor se mantém?
Ivanir Cella –
  Esse ano tivemos uma safra boa e esse número vai subir um pouco. O número de produtores também cresceu, principalmente de meliponicultores, que são os criadores de abelhas sem ferrão, as abelhas nativas. Pelo IBGE, hoje somos 17 mil produtores em mais de 270 municípios.

[Pelo Estado] – Sobre as questões ligadas ao Meio Ambiente, mortandade de abelhas e a utilização de agrotóxicos, como está a situação catarinense?
Ivanir Cella –
  O que houve foi uma destruição do habitat delas, isso já foi um problema maior do que é hoje. Mas muitas regiões estão retomando as coberturas vegetais, como no Oeste, e em outras essa cobertura está diminuindo, como no Planalto Norte e Sul, que estão abrindo lavouras de soja. Mas na média do estado está se reestabelecendo o habitat natural. A questão de pragas e doenças também está bastante controlada. De uns tempos pra cá a mortandade tem diminuído. Temos problemas, sim, mas a conscientização está maior. Principalmente dos produtores rurais que estão vendo na abelha um aliado para as lavouras. Isso já ocorre na maçã, onde todos os anos em torno de 60 mil colmeias são alugadas para ajudar na polinização. A maçã e fortemente dependente das abelhas, que ajudam em 90% da produção. O produtor recebe R$ 70, R$ 80, para deixar uma caixa durante 30 dias no pomar fazendo a polinização. Na soja também já temos iniciativas. Algumas pesquisas apontam que as abelhas ajudam em torno de 15%. Cada cultura tem um grau dessa dependência. O milho e o trigo dependem muito pouco, por exemplo, e as leguminosas já tem um potencial maior de dependência das abelhas. Ameixa e pêssego dependem 80% da polinização, o melão também chega a 90%.

[Pelo Estado] – É uma tendência o aumento de meliponários, a criação de abelhas sem ferrão?
Ivanir Cella – 
Eu acredito que sim. Essas são as nossas abelhas nativas e muitas espécies quase chegaram a ser extintas. Hoje a criação dessas abelhas voltou com força e como uma atividade econômica, mais para a produção de colônias, do que para a produção do mel. Isso é bom porque na medida que o produtor deixa de ser só extrativista e passa a multiplicar colônia as populações vão se reestabelecendo naturalmente. E mesmo que a produção de mel ainda seja incipiente, existe um diferencial na consistência, no aroma, então o mel de cada espécie tem uma característica única. Tem crescido muito, por exemplo, o mel como iguaria na alta culinária com méis de determinadas espécies. É um mercado crescente, com certeza.

[Pelo Estado] – Como a produção catarinense de mel está em relação ao mercado nacional e mundial?
Ivanir Cella – 
A produção de mel vem crescendo no Brasil. Hoje o país é o oitavo produtor e exportador mundial e a tendência é que chegue em quinto em cinco ou seis anos. O país é grande e a tecnologia que vem sendo usada tem se aprimorado muito nos últimos anos. Santa Catarina levou um choque nos últimos dez anos, a produtividade aumentou bastante, a qualidade também continua elevada. Nas últimas cinco edições do congresso mundial de mel os produtos catarinenses levaram medalha de ouro. Em três edições o mel catarinense foi considerado o melhor mel do mundo.
No Brasil, nós estamos em terceiro e quarto maior produtor e também estamos entre os maiores exportadores. Temos a maior produtividade por área, produzimos 68 quilos de mel por quilômetro quadrado no estado, enquanto a média nacional é 4,8 quilos. Rio Grande do Sul, que tem a segunda maior produtividade, deve produzir 18 quilos na mesma área que nós.

[Pelo Estado] – O mel argentino ainda é um problema?
Ivanir Cella – 
O que houve há alguns anos é que o mel brasileiro estava com preço mais alto no exterior e os produtores argentinos estavam com dificuldades de se colocarem no mercado internacional, principalmente porque eles usam alguns produtos que são contaminantes, diferente de nós que não usamos nenhum químico em nenhuma fase da produção do mel. Na Argentina e em  diversos países se usa no controle de pragas e doenças. O que acontecia é que se forçava até a entrada de mel argentino no Brasil para daqui ser exportado. Hoje a Argentina já conseguiu equilibrar a exportação. Não temos mais esse problema.

[Pelo Estado] – Em qual região do estado a atividade tem aumentado mais?
Ivanir Cella – 
No Oeste, a produção de mel era a quarta ou quinta prioridade nas propriedades rurais. A maioria dos produtores era pequeno. Hoje, com a alta tecnologia, podemos dizer que é a região que mais cresce na produção de mel e abelhas. Isso porque os produtores já começaram a produção com novas técnicas. Eles conseguem produzir em quantidade maior. E isso, às vezes, é uma dificuldade quando se chega em uma propriedade que se produz mel do mesmo jeito há quatro gerações.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *