Reitor da Unoesc escreve artigo sobre os desafios das universidades brasileiras diante do Covid-19

Foto Divulgação

O reitor da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), professor Aristides Cimadon, escreveu recentemente um artigo para o blog Conversando com o professor Cesar Luiz Pasold, onde discorre brevemente sobre os desafios das universidades brasileiras diante do Covid-19.

No artigo intitulado “COVID19: desafios à universidade brasileira”, o professor explica que a pandemia impôs o isolamento social e trouxe à luz, de forma ainda mais evidente, as dificuldades e os desafios da educação brasileira, em particular, a educação superior. Cimadon escreve que apesar disso, as universidades comunitárias, por sua vez, aceleraram a implementação de medidas que já vinham sendo planejadas, como por exemplo, o desenvolvimento de ambientes virtuais de aprendizagem, garantido o direito de seus estudantes concluírem seus itinerários formativos.

O reitor destaca ainda, que mesmo diante desta situação de drásticas mudanças, as universidades comunitárias não paralisaram suas atividades. Ao contrário, multiplicaram seus cursos, seus projetos, atraíram mais estudantes e aproximaram professores internacionalmente renomados para seminários, cursos, palestras como complementação de aulas.

“É preciso aprender com a pandemia. Ela é oportunidade de revisão, reconstrução, inovação tecnológica e cultural. Parece evidente que a universidade irá construir um caminho para trazer esses dois mundos, o digital e o presencial, mais próximos em todos os processos de formação”, reiterou o professor em seu artigo.

Texto integral, a seguir:

1. APONTAMENTOS INICIAIS

Quando fui desafiado por meu confrade amigo, professor e sempre orientador, Dr. Cesar Luiz Pasold, a escrever algumas ideias sobre a pandemia provocada pelo Covid19 e os desafios à Universidade brasileira em face do isolamento social, havia acabado de ler Colapso, de Diamond (2010). Dele devo mencionar ao menos uma de suas observações:

Difícil e doloroso abandonar alguns valores fundamentais quando estes começam a se tornar incompatíveis com a sobrevivência. Até que ponto nós, como indivíduos, preferimos morrer em vez de nos adaptarmos e sobreviver? Milhões de pessoas nos tempos modernos de fato enfrentaram a decisão de, para salvar as próprias vidas, trair amigos e parentes, aquiescer com uma ditadura vil, viver como escravos ou fugir de seus países. As nações e as sociedades às vezes têm de tomar decisões similares coletivamente (DIAMOND, 2010, p. 517).

Um colapso, como é a pandemia do Covid19, não significa o Juízo Final da humanidade, nem uma apocalíptica destruição das estruturas sociais. Mas, certamente promoverá mudanças e declínio nos padrões de vida de grande parte da população, ao mesmo tempo que criará oportunidades, criatividade, inovação e brutais mudanças no modo de ser, fazer e viver.

Num momento como esse, o fracasso ou o sucesso das universidades ou mesmo dos indivíduos, esteja em saber discernir em quais valores fundamentais se apegar e quais descartar. Na pandemia, aflora tudo o que é supérfluo ou que dificulta sobreviver. Estruturas que as organizações sociais consideravam perenes podem ruir. É o caso da velha e clássica universidade com suas vetustas metodologias para formar pessoas, produzir ciência e conhecimento.

2.MUDANÇAS E INOVAÇÃO NAS IES BRASILEIRAS

A pandemia provocada pelo Covid19 impôs o isolamento social, trazendo à luz, de forma ainda mais evidente, as dificuldades e os desafios da educação brasileira, em particular, a educação superior.

Historicamente, o Brasil sempre conviveu, sem muita rebeldia, com uma estrutura normativa educacional inflacionária, centralizada e injusta. O País dispensa vultosos recursos com a educação superior pública e, apesar de alguns programas assistenciais, deixa à margem alto percentual de jovens de baixa renda que, se quiserem formação superior, devem se dirigir ao ensino pago.

E como as IES vêm respondendo a estes novos problemas e aos desafios que se impõem? As instituições públicas, menos afeitas à luta pela sobrevivência, suspenderam as atividades presenciais e, na sua maioria, não tomaram medidas para encontrar saídas de enfrentamento à pandemia. Sequer se preocuparam, a despeito dos discursos em favor da democracia e da proteção dos direitos humanos, em proteger os direitos dos seus estudantes de dar sequência a seus percursos formativos.

As universidades comunitárias, por sua vez, aceleraram a implementação de medidas que já vinham sendo planejadas, como por exemplo, o desenvolvimento de ambientes virtuais de aprendizagem, garantido o direito de seus estudantes concluírem seus itinerários formativos. A pandemia revelou que há alternativas e que as organizações, diante do medo e da ameaça, se adaptam, rapidamente, a novos modos de fazer e viver.

Manoella Smith (2020) aponta que as universidades em todo o país tiveram de se adaptar, em poucas semanas. O uso de tecnologias para aulas remotas, com apoio de docentes e estudantes, impulsionou mudanças que não eram imagináveis há bem pouco tempo atrás. Certamente, após a pandemia, as instituições de educação superior não mais voltarão a operar como antes.

Sabe-se que as IES comunitárias, assim como as públicas, sempre priorizaram o ensino presencial, por acreditarem que a formação, neste formato pedagógico, acrescenta mais qualidade do que o formato virtual.

Todavia, tudo indica que essas duas modalidades, após a pandemia, passarão a ser trabalhadas conjugadamente.

Apesar da pandemia, as universidades comunitárias não paralisaram suas atividades. Ao contrário, multiplicaram seus cursos, seus projetos, atraíram mais estudantes e aproximaram professores internacionalmente renomados para seminários, cursos, palestras como complementação de aulas.  Essas mudanças fazem repensar o modelo de governança de muitas universidades, ainda organizadas sob o manto de uma estrutura acadêmica burocratizada, pesada e lenta.

As instituições públicas também deverão sofrer mudanças. Há um crescente clamor crítico a elas dirigido, sobretudo relacionado a seus precários resultados, se considerados os recursos públicos consumidos. Entende-se que a educação superior pública brasileira precisa ser revista de forma acelerada após a pandemia, apesar das resistências.

É preciso aprender com a pandemia. Ela é oportunidade de revisão, reconstrução, inovação tecnológica e cultural. A exigência de adoção de novas estratégias de gestão, de organização, de metodologias obriga os professores a reverem as formas de ensinar, de se relacionar e de orientar os estudantes. Por sua vez, os estudantes deverão buscar mais autonomia no processo de aprendizagem. Parece evidente que a universidade irá construir um caminho para trazer esses dois mundos, o digital e o presencial, mais próximos em todos os processos de formação.

3.CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pandemia promoveu desconforto e ansiedade que não combinam com a tranquilidade, a morosidade e a rotina das épocas de bonança. Exige mudanças rápidas. Embora não sendo muito adepto das proposições teóricas de Boaventura de Souza Santos (2020, p. 3), parece verdadeiro quando afirma que “a pandemia confere à realidade uma liberdade caótica, e qualquer tentativa de a aprisionar analiticamente está condenada ao fracasso, dado que a realidade vai sempre adiante do que pensamos ou sentimos sobre ela”.  A prática caótica se esquiva da teorização. Então, o que se aponta aqui poderá não ser a realidade futura.

É difícil prever ou imaginar como será. A única certeza que se tem é a de que nada será como antes.

4.BIBLIOGRAFIA

DIAMOND, Jared. Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso. 7 ed., Rio de Janeiro: Record, 2010. Tradução de Alexandre Raposo. Título original: Collapse

SMITH, Manoella. Futuro do ensino universitário será um hibrido de presencial e virtual. São Paulo: Folha de São Paulo. 8.jun.2020. Disponível em:  https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/06/futuro-do-ensino-universitario-sera-um-hibrido-de-presencial-e-virtual.shtml  Acesso em 11 de junho de 2020.

SOUZA SANTOS, Boaventura de. A Cruel Pedagogia do Vírus. Lisboa: Almedina, 2020.

 

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