ACIDENTE DA CHAPE: Famílias vão a Inglaterra protestar por indenizações

Viúva do jogador Cleber Santana diz que “o mundo precisa nos ouvir”. Rosângela Loureiro vai a Londres, com viúvas e o zagueiro Neto, onde fará um protesto em frente a uma das empresas que ela alega ser seguradora dos mortos em acidente aéreo; eles querem receber valor correto pelas vítimas

28 de novembro de 2016. O dia da maior tragédia com uma delegação esportiva do Brasil. O voo 2933 da LaMia, com funcionários, dirigentes e jogadores da Chapecoense, cai na área rural de La Unión, na Colômbia, exatamente às 21h58, fazendo 71 vítimas fatais – seis sobreviveram.

Aquela noite ainda não acabou. “Vai fazer três anos da queda e nada foi resolvido até agora.” A frase é de Rosângela Loureiro, viúva de Cleber Santana, capitão e um dos principais jogadores daquele time. Com passagens por clubes como Sport, Santos, São Paulo, Flamengo e Atlético de Madrid, o pernambucano deixou dois filhos: Aroldo, de 14 anos, e Clebinho, de 17. Rosângela, assim como outras famílias, luta para receber a indenização pelo desastre. No dia 26 de setembro, ela e outras oito viúvas, além do zagueiro Neto, um dos sobreviventes, rumam a Londres, onde fazem um protesto, em frente à sede da Aon, a seguradora do voo. “Todas as viúvas queriam estar lá, mas nem todas podem porque é em Londres. Não é barato. A gente está indo por conta nossa. A Aon é uma das patrocinadoras de um dos maiores times do mundo, o Manchester Unitede”, garante.

ENTENDA O CASO
O seguro da aeronave era de US$ 25 milhões (cerca de R$ 104 milhões), na época do acidente, mas os advogados das famílias contestam. Eles dizem que, até 2015, a apólice era de US$ 300 milhões (R$ 1,24 bilhão) e, a partir de 2016, mesmo com o risco ampliado por passar a transportar atletas de clubes de futebol, a apólice caiu de valor.

“A gente contesta o valor dito tendo como base as apólices que foram juntadas durante o processo. A LaMia levou a seleção da Argentina em outros jogos. Um time de futebol é um ativo. Se o avião cai com Messi? Qual o valor do prejuízo? Convenhamos que US$ 25 milhões não seriam suficientes”, disse Alan Belaciano, advogado que representa Rosângela e também Suzi, viúva do ex-zagueiro William Thiego.

Segundo os advogados, a Aon era a seguradora do voo. A empresa rebate que não é. Afirma ser uma resseguradora, que faz uma espécie de “seguro do seguro”. O resseguro é uma operação na qual um segurador transfere a outro um risco – até mesmo parcial – assumido em uma apólice. Outras duas empresas – Tokio Marine Kiln, seguradora nascida no Japão, e a boliviana Bisa – fazem parte de um fundo humanitário criado para repassar o dinheiro às famílias das vítimas. Elas ofereceram cerca de R$ 935 mil para cada uma. Em troca, os beneficiários teriam de desistir das ações na Justiça. Ao todo, 23 famílias toparam o acordo. E 48, não.

Os advogados das famílias dizem que a Aon é responsável pela avaliação de risco de seguros. Equivale-se a uma corretora de seguros. As resseguradoras são a Tokio Marine Kiln, como empresa principal, e a Bisa. Segundo Alan Belaciano, “a seguradora e as resseguradoras alegam que não devem pagar a indenização às famílias porque a apólice não estava paga, porém não comunicaram à agência aérea responsável que as aeronaves não poderiam sobrevoar o Peru e a Colômbia”.

NECESSIDADES
“Tem gente que não tem condições de segurar durante muito tempo e correr atrás dos direitos porque, dependendo do valor, significa muito dinheiro por causa das condições que estão passando. Tem gente que ia ter de tirar filho de escola, de faculdade, porque está passando necessidade. E, se essa indenização chegasse, iam poder garantir o futuro dos filhos deles”, completou Rosângela.

As pessoas que organizam o protesto em Londres calculam que o valor devido pela Aon, Tokio Marine Kiln e Bisa varia entre US$ 4 milhões e US$ 5 milhões (de R$ 16 milhões a R$ 20,8 milhões) para cada família. Ainda segundo os advogados das famílias, o valor de exigência da apólice de seguro foi reduzido em US$ 275 milhões (R$ 1,14 bilhão), justamente quando a LaMia deixou de fazer voos esporádicos. As viagens passaram a ser comerciais, com jogadores de futebol avaliados em milhões de dólares, quando a quantia da apólice caiu.

AÇÕES NA JUSTIÇA
“Você não está avaliando a vida, que não tem preço, mas sim o patrimônio que estava dentro da aeronave. Qual era o patrimônio da Chapecoense? Calculamos isso, por exemplo, os valores que eles recebiam, o tipo de contrato, a duração daqueles contratos. Vamos dizer que Cléber Santana recebia o maior salário da Chape. Por quanto tempo ele teria aquele contrato?”, explica Alan Belaciano.

Até o momento, todas as famílias receberam um seguro de vida pago pela CBF e pela Chapecoense, com o valor referente a 40 meses de salários. Tudo foi pago de uma vez. Mas, na visão dos advogados, isso foi feito da maneira incorreta. “Existem várias ações contra a Chapecoense porque, mais uma vez, as coisas foram feitas sem os objetivos reais. O pagamento foi feito com base no que eles recebiam de salário na carteira de trabalho. E todo mundo sabe que o salário do jogador é, na maior parte, os direitos de imagem. Elas deviam ter recebido em cima da remuneração total”, conclui o advogado.

RESPOSTA DA AON
De acordo com o GloboEsporte.com, a Aon se manifestou por meio de uma nota oficial enviada por e-mail: “A Aon não é uma seguradora e não é responsável pelo pagamento de sinistros. Qualquer discussão sobre indenizações deve ser conduzida com o segurador do risco. A Aon não comenta assuntos de clientes.”

A Tokio Marine Kiln não atendeu as ligações. O escritório da Bisa no Brasil fechou.

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