Ser Escritor é (re) inventar o Mundo por Antonio Carlos Pereira

E essa quarentena sem fim… Ano letivo praticamente perdido, eventos suspensos no Teatro, aulas online. Reflita: ao longo da vida cada um de nós já enfrentou e superou crises mais graves. Ainda bem que contamos com as redes sociais, que nos (re) aproximam.

Um dia recordaremos esses tempos de pandemia, quando todos precisávamos usar máscaras e nos cuidarmos mutuamente; tempos de “retiro compulsório”, isolamento social e maior convivência familiar, hora de repensar e reorganizar nossas vidas. E botar ordem na casa, dedicando maior atenção para o que gostamos de fazer, de colecionar.

Colecionar é reunir objetos da mesma natureza: um conjunto de selos, quadros, livros que selecionamos por sua beleza, raridade, valor. Eu sempre colecionei discos (daqueles de vinil) e livros (daqueles de papel). Ao invés de descartar coisas que ocupam muito lugar, adaptei espaços para conservá-las. Mas, me digam, existe algo melhor que abrir um livro e sentir aquele cheirinho de guardado, saborear antecipadamente seu conteúdo…

Resolvi catalogar a biblioteca caseira numa planilha Excel, pois ela permite separar em colunas para pesquisar – por título, autor, assunto, ano da edição – e até para tentar recuperar os que um dia emprestei. Os antigos já diziam que emprestar um livro é como mandar um filho para a guerra: às vezes não retorna, mas quando volta vem todo “estropiado”.

Enquanto digitava a planilha, fui recordando. Esse eu comprei numa viagem, aquele ali ganhei, este outro ficou guardado e agora vou ler, pois recomendaram nalguma rede social.

Encontrei preciosidades, como um livro autografado por Miguel Balardini, avô da minha esposa Marina, lançado no ano em que ela nasceu. Ao completar o primeiro milhar de títulos parei para apreciar o conteúdo e resolvi reler um dos meus favoritos, “Amado e Glorioso Médico”.

Na verdade, eu já o lera em outra tradução, feita em 1958 por Aydano Arruda, “Médico de Homens e de Almas”. Sua autora, a escritora britânica Taylor Caldwell, pesquisou a vida e as obras do padroeiro de médicos e pintores, São Lucas, que ela descreve de maneira romanceada e emocionante, plena de detalhes históricos. Sua narrativa inicia com um prólogo: “Este livro levou quarenta e seis anos a ser composto. Sua primeira versão, escrevi-a aos doze anos; a segunda, aos vinte e dois; a terceira, aos vinte e seis. A última começou há seis anos…” Ainda no prólogo, ela informa ainda: “Quase todos os acontecimentos desta história, são autênticos. Meu marido e eu lemos mais de mil livros sobre São Lucas e o seu tempo. Incluí também muitas lendas e tradições obscuras que encontrei, quando tinha doze anos, num grande livro escrito por uma freira de Antióquia”.

O exemplar que escolhi tem um atrativo especial: a assinatura do meu saudoso sogro, Alvim Reese, que o presenteou para a filha Marina. Lançado em 1960 pela Biblioteca de Seleções do Reader’s Digest, com tradução de Cecília Meirelles, “Amado e Glorioso Médico” conta a história de Lucano, um piedoso médico que nasceu na Antioquia, filho de escravos gregos libertos. Ainda criança, Lucano interessa-se pelo “Deus desconhecido”, um Deus único, bom e justo, muito diferente dos deuses romanos e gregos.

Ele foi contemporâneo de Jesus Cristo e sempre buscou o Mestre, mas não o conheceu, porém conversou com sua santa mãe Maria, e pelo relato de Nossa Senhora e de outras pessoas escreveu o que hoje conhecemos como Evangelho de São Lucas.

Pude confirmar, também, a nossa preferência: temos muitas biografias de cantores e artistas, romances, livros de religião, história, autoajuda, esoterismo, poesia, crônicas, contos, cinema, entre outros. Ah, e muitos infantis – mas não cataloguei as centenas de gibis, quem sabe um dia…

Antonio Carlos Pereira, “viciado em leitura” desde que foi precocemente alfabetizado.

 

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