Luzerna dá um salto ao futuro pela Educação tecnológica

ENTREVISTA MOISÉS DIERSMANN / PREFEITO DE LUZERNA

Município vizinho investe em capacitação de estudantes para mudar a base de formação profissional de seus futuros cidadãos, sem ignorar a economia histórica, mas criando um ambiente desenvolvimentista que eleva seu Parque Tecnológico à condição de ponta-de-lança da estruturação cibernética no Meio-Oeste de Santa Catarina
Claudia Mota e Rodrigo Leitão
jornalismo@raizesdiario.com.br

Em uma década, pelos investimentos e desenvolvimento de estruturas educacionais no município, Luzerna estará para o Brasil o que o Sul da Índia representa para o Mundo. Ou seja, teremos a poucos quilômetros do centro de Joaçaba um verdadeiro “Vale do Silício”, com empresas produzindo soluções para os mais diversos segmentos educacionais e industriais, além de exportar essa produção com maior relevância, como já esboçam as 28 empresas instaladas na incubadora daquela cidade, que hoje vendem programas e projetos para vários estados brasileiros, alguns países e até para a NASA. Em junho, o prefeito Moisés Diersmann esteve no Ministério da Educação, em Brasília, para apresentar o modelo original desenvolvido em Luzerna para modificar a estrutura educacional dos ensinos fundamental e médio, inserindo a tecnologia da informação nos currículos escolares a fim de despertar, incentivar e estimular a formação de jovens profissionais mais capacitados para lhe dar com a economia do futuro. Nessa entrevista ao RD Comunicação ele conta como chegou ao patamar de cidade cibernética modelo para o estado de Santa Catarina.

RD – Luzerna criou um modelo de integração do ensino de base com a modernidade da tecnologia de informação. Como vocês chegaram a essa visão?
MOISÉS DIERSMANN – Estamos dando um foco muito grande na educação de base. Hoje, podemos dizer que o adolescente brasileiro nem estuda e nem tem uma profissão que garanta seu futuro profissional. Grandes sistemas mundiais privilegiam o foco no adolescente. Você tem que dar educação de grande qualidade em Lógica, Matemática, Línguas e Ciência para que eles possam dar um salto grande na sua qualificação profissional, mas também na formação tecnológica futura. Exemplo, nós estamos trabalhando já há muito tempo no contra turno escolar em que os alunos tenham a obrigatoriedade das disciplinas hermenêuticas (que interpretam as coisas) como base curricular, mas também no contra turno desenvolvem o aprendizado das profissões, põem a mão na massa.

RD – E como vocês estão desenvolvendo isso?
MOISÉS DIERSMANN – Novos modelos educacionais estão instigando os alunos a desenvolver e buscar algo mais prático. Isso incentiva e estimula a criatividade das crianças e faz com que estes adolescentes se preparem para um resultado de grande qualificação e empreendedorismo num espaço curto de tempo, num período de seis a sete anos. Isso ou vai gerar novos negócios ou vai fortalecer os que já existem. Para isso, nós, inclusive, temos uma incubadora tecnológica no município, que privilegia o nascimento de startups (empresas de bases tecnológicas) e o município tem conseguido suprir muito essa demanda, com jovens qualificados para desenvolver tecnologia não somente na área de softwares, aplicativos para celulares, mas também nas áreas tradicionais que nós investimos.

RD – E isso já está acontecendo em Luzerna, já existe a robótica desse processo?
MOISÉS DIERSMANN – Sim. Se a indústria metal mecânica usa tecnologia de informação nós temos mecânica a ofertar a esse segmento. Se usa elétrica, se usa automação nós temos. E quando a gente junta todo esse processo, nós temos a robótica. E você só tem a robótica quando você entende de mecânica, de elétrica, de programação. E quando se junta todas essas áreas e passa a fazer com que o indivíduo experimente isso, nós acabamos criando uma sinergia muito grande em ter tecnologia sendo desenvolvida. E fizemos isso numa pequena cidade de 6 mil habitantes.

RD – Como foi possível desenvolver este pensamento e por em prática o modelo?
MOISÉS DIERSMANN – Para isso, foi fundamental o poder público ser o articulador. Juntamos instituições de ensino como o Senai, o Instituto Federal (IFC), Sebrae, Sesi, Senac, as escolas municipal e estadual, a área empresarial, como o Sistema Fiesc. Trouxemos todas essas organizações e as conectamos num formato desenvolvimentista que chamamos de Tríplice Hélice: poder público, setor privado e instituições de ensino. Com isso desenvolvemos o nosso Parque Tecnológico. Então, em Luzerna, todos os adolescentes têm a oportunidade de estudar dentro do Parque Tecnológico com foco no seu futuro profissional. Isso dá uma representatividade muito grande para que a nossa economia futura realmente tenha destaque na região e no estado.

RD – Qual a capacidade ocupada da incubadora hoje?
MOISÉS DIERSMANN – Nossa incubadora, hoje, tem 28 empresas de bases tecnológicas, algumas exportando para outros estados brasileiros e para alguns países e uma delas desenvolvendo um programa para a NASA. Isso é muito bom. É um novo salto, porque começamos a desenvolver tecnologia aqui no Meio Oeste, sem precisar comprar tecnologia de fora. Estamos criando uma consciência não só de Luzerna, Santa Catarina e Brasil, mas para ancorar nossa economia futura. Nós sempre fomos muito colônia, temos pensamento de país extrativista, de produção de alimentos e pouca coisa de produção de equipamentos e sempre copiando modelos externos, não desenvolvemos nada. Agora, com essa iniciativa de inverter essa lógica e fortalecer a educação com qualidade e desenvolver tecnologia na base educacional, passa-se a olhar o desenvolvimento de uma nação com uma outra óptica, que é produzir e desenvolver tecnologia e aí você tem uma ruptura nesse processo de plantar e colher, pois vai agregar muito mais valor. E isso a gente conseguiu fazer numa pequena cidade de 6 mil habitantes.

RD – Esse modelo de Luzerna será nacional?
MOISÉS DIERSMANN – Estamos replicando, outros municípios estão adotando o nosso modelo. Estivemos mês passado no Ministério da Educação, em Brasília, propondo nosso modelo ao ministro. Mostramos que o avanço pela educação não desrespeita a economia histórica do município, mas que é possível criar clusters (aglomeração de computadores capazes de dar suporte a indústrias variadas por meio de integração tecnológica, dentro de um mesmo município) e garantir desenvolvimento em outros segmentos, como têxtil, turismo, vestuário, madeira, móveis, cerâmica. Mas o grande salto é na educação. Quando o adolescente chega aos 13 anos começa-se a fazer um foco muito grande em sua capacitação profissional.

RD – Outros municípios da região estão copiando o modelo californiano, do Vale do Silício, inclusive Joaçaba já mandou até uma missão para conhecer os processos de lá. E Luzerna já saiu na frente… Vocês se orientaram com base no êxito norte-americano?
MOISÉS DIERSMANN – Isso inclusive foi motivo de estudo, porque verificamos que no começo eram as fazendas que sustentavam a economia da Califórnia. Com as intempéries muito fortes, eles foram buscar a tecnologia. Nós estamos, do nosso jeito, aproveitando a ideia e aplicando um modelo similar aqui, mas criado por nós e dentro da nossa realidade. São culturas diferentes e não podemos apenas copiar simploriamente, é preciso aplicar à nossa realidade, às nossas necessidades e à nossa economia. Isso se faz pela educação e é assim que estamos provocando essa ruptura.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *