Vinhos para brindar o Rock’n’Roll

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A paixão pela bebida de Baco entre os roqueiros é mais antiga do que se imagina. Desde os anos 60, muitos astros do rock apreciam um bom vinho

Rodrigo Leitão
De Brasília

Talvez nenhuma outra banda de rock tenha inventando tanto produto para vender quanto o Kiss. Os roqueiros caras-pintadas de Nova York já lançaram de camisinha a caixão. São os reis do merchandising no mundo do rock’n’roll. Há alguns anos, Gene Simons e Cia surpreenderam ao lançar a marca própria de vinhos e cervejas. O vinho do Kiss, segundo o vocalista Paul Stanley, não é mero jogo de marketing. Eles pesquisaram e pediram ao enólogo um vinho que literalmente tivesse a cara da banda. Qual a uva? Cabernet Sauvignon. A série Kiss Zin Fire conta três rótulos principais e selo de autenticidade.

De uns tempos para cá, os roqueiros descobriram o vinho comercialmente, mas a bebida já faz parte das listas de camarins há décadas. Principalmente vinhos brancos, champagnes e espumantes. Sir Paul McCartney, por exemplo, não esconde sua predileção pelos franceses Chablis. Ele já foi visto algumas vezes degustando o Dampt Chablis, produzido há 150 anos pela família de Daniel Dampt, em Milly. Da última vez, Paul bebia da safra 2007, em um restaurante de Los Angeles.

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Bono Vox, líder do U2, já foi visto em vários restaurantes do mundo pedindo sauvignon blancs sul-africanos. O preferido dele é o La Motte, produzido na propriedade da família Littore, na região de Franschhoek, perto da Cidade do Cabo. Na última passagem da banda por lá, Bono pediu o La Motte Pierneef Shiraz/Viognier 2005. Aqui precisamos fazer um à parte. Esse vinho foi inspirado em um importante artista plástico sul-africano chamado Jacob Hendrik Pierneef (1886-1957). Seu trabalho primitivista retratava as belas paisagens da região com delicadeza, maestria, singeleza e força. A música do U2 é assim. Eu costumo dizer que Shiraz é a uva do rock, mas que bandas como Beatles e U2 estão mais para o norte do Rhone do que para a Barosa australiana. E esse vinho tinto preferido pelo Bono Vox é exatamente assim. A Viognier entra aqui para amansar a adolescente Shiraz, para dar suavidade a essa mistura. O resultado é um paladar elegante que, por contraste óbvio, lembra pêssegos e cerejas. Os taninos são vivos, mas refrescantes. Um vinho inusitado, imprevisível, uma mistura rara de branco e tinto, temperada e extravagante como o rock tem de ser. E como o rock’n’roll, este é um vinho acessível. Na África do Sul, custa US$ 25.
O ex-Police Sting, também protagonizou uma rica história com o vinho. Mas já se desfez do negócio. O inglês Gordon Matthew Thomas Sumner é um revolucionário silencioso. Trocou a Matemática pelo contrabaixo, inventou uma batida atravessada para sua música e deslanchou com a new wave do pós-punk para uma carreira pródiga e meteórica. Abandonou o Police e caiu no jazz. Há alguns anos, entrou no mundo do vinho e fez bonito. Juntamente com sua mulher Truddy (com quem tive a oportunidade de conversar enquanto Sting se apresentava no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, em 1987, no início da minha carreira jornalística), o roqueiro inglês se debruçou sobre a produção de super toscanos, ao sul de Florença.

Se antes ele tinha uma mensagem dentro de uma garrafa, agora ele tem vinho de qualidade. Message in a Bottle foi um megahit musical de Sting. Hoje, a garrafa é de Sister Moon (Irmã Lua), um tinto elaborado a partir de Sangiovese (50%), Cabernet Sauvignon (25%) e Merlot (25%). Provei em Goiânia, no ano passado, na loja My Winery do meu amigo Felipe Prigol. A revista Wine Spectator deu 93 pontos a ele. É um vinho aromático, com cerejas, morangos, framboesas e groselha, profundo, intenso, com especiarias e estruturado. Elegante! “Um vinho polido, com mirtilo, carvalho tostado, levemente esfumaçado e apimentado. Muito sedoso, com um final longo”, publicou a WS.

Essa história começou há mais de dez anos, quando Sting e Truddy investiram na restauração de uma vila do século 16, nas colinas da Toscana. Nos jardins, vinhas e olivais. Sting e sua família são vegans radicais, comem só do que a terra dá. O vinho é biodinâmico e tem saída também com outro rótulo: Casino delle Vie. Sting não sabia como fazê-lo, então pediu ajuda ao renomado viticultor biodinâmico Alan York. Casino delle Vie é o nome da casa principal desta antiga fazenda italiana. O vinho é 100% Sangiovese, um Chianti autêntico. Mas, antes que alguém pense em aposentadoria, Sting avisa: “Eu não desisti da música para assumir a vinificação. Compramos esta propriedade porque amamos isso.” O cantor comprou a terra na Itália para fazer música, montou um estúdio por lá, mas descobriu que faltava algo para completar sua inspiração… Era o vinho.

Coleção direto do Rol da Fama

Depois de uma premiação na galeria do Hall of Fame, em Los Angeles, quando os roqueiros presentes deliciavam belos exemplares de vinhos californianos, o empresário John Gruber, presidente da Warnner Media, editora da revista Rolling Stone, vislumbrou uma forma inteligente de preservar os leitores e ainda abarcar os milhares de fãs de rock, hoje órfãos da indústria fonográfica que não sabe mais como combater a pirataria. Gruber viu as capas dos álbuns no lugar dos rótulos do vinho. Segundo ele, o rótulo combinado com o sabor do vinho faz dessa bebida um produto único, típico desse mercado. Surgia ali o Wine Club da Rolling Stone.

Na trilha de Gruber, veio o enólogo Mark Beamer, que sequer esperou o projeto da maior revista sobre rock do mundo emplacar. Beamer, que já produzia vinhos, lançou Rolling Stones, Pink Floyd e uma coletânea de Woodstock. O pacote chama-se “Rainbow Pack” e traz as garrafas com o título de cada disco, ao preço de U$ 51. Os álbuns tintos são: Forty Licks, dos Rolling Stones (feito com Merlot), The Dark Side of the Moon, um Cabernet Sauvignon com a marca Pink Floyd e um Chardonnay, em homenagem a Woodstock. No caso do Pink Floyd, Beamer harmonizou o som ímpar do clássico Dark Side com a essência da Cabernet (uma uva jazzy) que é a combinação de atemporalidade com atitude, o que, segundo ele, representa bem o terroir do Condado de Mendocino, de onde veio a uva. O chardonnay de Woodstock não passou por madeira, preservando a fruta em homenagem a quebra de paradigmas que o festival promoveu no final dos anos 60.

Mas os vinhos do rock’n’roll, o terroir mais imprevisto da face da terra, não param por aí. Seguindo o investimento do Kiss, o Slayer também foi a Suécia lançar seu vinho: Reign In Blood 2010, tinto de Cabernet Sauvignon produzido na Califórnia. Cada garrafa custa US$ 55. E a banda ainda avisa: “De sangue, só a cor do vinho.”

Um autêntico shiraz australiano

Uma das bandas mais longevas do rock é o AC/DC, formada em 1973, em Sydney, na Austrália, pelos irmãos Angus e Malcolm Young. Depois de rodarem pelos quatro cantos da Terra, inclusive várias vezes passando pelo Brasil, e confortavelmente sentados sobre uma fortuna adquirida pela venda de mais de 200 milhões de discos ao longo da carreira, eles resolveram lançar um outro produto de seus melhores álbuns.

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Já estão sendo vendidos os vinhos Back in black Shiraz, You shook me all night long Moscato, Highway to hell Cabernet Sauvignon e Hells Bells Sauvignon Blanc. Os irmãos Young não são produtores de vinhos e, pelo que se sabe, em seus camarins a bebida predileta era Jack Daniels. Mas o mercado combalido pela pirataria falou mais alto e eles pediram à vinícola australiana Warburn Estate que resolvesse o assunto.

Aqui vale dizer que o shiraz do AC/DC é bem diferente do saboreado pelo U2. A uva típica da Austrália surge no vinho que dá nome ao álbum mais famoso dos irmãos Young, Back in Black Shiraz. Trata-se de uma bebida com o viés eternamente jovem do rock ‘n’ roll. Um shiraz jovem, bravio, com elevada acidez e taninos presentes, para acompanhar uma bela picanha.

Ainda na linha do rock mais pesado, os norte-americanos do Motörhead também encararam um tinto shiraz. E não muito longe deles, o Grateful Dead pediu ao enólogo Marcos Beaman que criasse um assemblage tipicamente californiano para eles. A alquimia sugerida por Beaman parece refletir bem o som da banda. O vinho chama-se Red Grateful Dead e mistura as uvas Shiraz, Petite Shiraz, Zinfandel e Grenache. O resultado são aromas de cerejas maduras e de bacon, com nuances de baunilha e caramelo.

This is rock ‘n ‘roll.

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