Brasil perde um jornalista comprometido com o leitor/Ouvinte/Telespectador

   Morto na queda do helicóptero que o levava para a Band, em SP, corpo de Ricardo Boechat é velado no Museu da Imagem e do Som, Em São Paulo. Velório do jornalista teve início às 22h desta segunda-feira (11)

Rodrigo Leitão
jornalismo@raizesdiario.com.br

A notícia da morte trágica, inesperada, antecipada e prematura do argentino-brasileiro Ricardo Boechat, no fim da manhã desta segunda-feira mexeu com o País e fez com que cada colega seu, conhecido ou não, pensasse, de verdade, na função e tarefa de um Jornalista com “J” maiúsculo. O acidente com o helicóptero que o levava de Capinas-SP para o Grupo Bandeirantes de Comunicação, no Morumbi, em SP, não levou apenas um dos mais brilhantes jornalistas da geração anterior à minha e um dos repórteres investigativos mais importantes da história do jornalismo brasileiro. Levou um cidadão brasileiro, inconformado com as maledicências que se abatem sobre os menos favorecidos. Boechat era um “democrata-anarquista” que a seu modo não media nem palavras e nem esforços para levar ao seu público a melhor das informações, o mais verdadeiramente possível dentro da indústria jornalística onde nem sempre se permite dizermos todas as verdades.

O corpo de Ricardo Boechat está sendo velado desde as 22h desta segunda (11) no Museu da Imagem e do Som (MIS), no bairro Jardim Europa, na capital paulista. O local está aberto ao público.

O jornalista do Grupo Bandeirantes morreu na queda de um helicóptero na Rodovia Anhanguera, quando retornava de uma palestra em Campinas. O acidente ocorreu no início da tarde de segunda (11). O piloto da aeronave, Ronaldo Quatrucci, também morreu.

A pedido do presidente Jair Bolsonaro, o ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Augusto Heleno, irá representá-lo no velório do jornalista. Bolsonaro disse que ele e Boechat eram amigos “há mais de 30 anos” e que ele apelidou o jornalista de “Jacaré”.

Ricardo Boechat tinha 66 anos, era apresentador do Jornal da Band e da rádio BandNews FM e tinha uma coluna semanal na revista ISTOÉ. O jornalista nasceu em Buenos Aires, na Argentina, quando o pai Dalton Boechat, diplomata, estava a serviço do Ministério das Relações Exteriores. Dono de um humor ácido, usava essa característica para noticiar fatos e criticar situações. O tom era frequente nos comentários de rádio, televisão e também na imprensa escrita.

Políticos, magistrados e organizações vieram a público para lamentar a morte do jornalista. Boechat deixa mulher, cinco filhas e um filho.

PODE FAZER!
Trabalhei quase seis anos no Grupo Bandeirantes de Comunicação, em Brasília, onde fui Editor Chefe, Pauteiro, Produtor, Chefe de Reportagem, Colunista e Comentarista na Rádio Band News FM.

Meu contato com Ricardo Boechat se dava, na maioria das vezes, durante os plantões de final de semana. Muitas vezes eu tinha reportagens, vídeos e sonoras (falas) que implodiam a política brasiliense, respingando nacionalmente nos partidos políticos. Muitas vezes eu me frustrava e até perdia a confiança das fontes, porque meus superiores não permitiam que aqueles assuntos fossem abordados pela emissora antes que a Rede Globo se expusesse.

Minha redenção vinha quando eu, na chefia do plantão em Brasília, pegava Ricardo Boechat na chefia de São Paulo. Ele queria é ver os delinquentes da política sendo expostos com suas roubalheiras, como eu também queria. E aí, quando eu avisava na reunião de pauta, por videoconferência, o que eu tinha, a resposta era inevitável: “Pode Fazer!”

Os VTs iam pro ar e tinham efeito de bomba. Com a anuência de Ricardo Boechat, o Brasil ficou sabendo que o governador do DF recebia maços de dinheiro, que a secretária de Educação punha o dinheiro da corrupção dentro da bolsa, que o presidente da Câmara Legislativa escondia nas meias as verbas que compravam seus votos e atitudes.

Há uns três anos, Ricardo Boechat entrou em depressão profunda. Ficou mais de 40 dias fora do ar. Talvez isso tenha sido consequência de uma pressão insuportável, que vem de todos os lados, porque o jornalismo bem feito incomoda e derruba até presidente da República. Sei bem o que é isso. Por causa do chamado Mensalão do DEM, em Brasília, acabei tendo crise de ansiedade, o que me levou ao tratamento de pânico e a deixar as redações tradicionais da cobertura de política, para evitar o estresse. Não é fácil para quem quer fazer jornalismo de verdade.

RIP Boechat!

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