Problemas mentais podem afetar 51 milhões de brasileiros

ENTREVISTA \ TADIANE LUIZA FICAGNA

Rodrigo Leitão
jornalismo@raizesdiario.com.br


Um quarto da população mundial será afetada por problemas mentais ou neurológicos em algum momento durante a vida. A constatação deste número alarmante está em um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS). Isso significa 25% dos habitantes do planeta e, no Brasil, corresponde a 51 milhões de pessoas. Localizando para Joaçaba, essa estatística soma-se ainda a um elevado número de suicídios. Cuidar da saúde mental é tão fundamental quanto ir ao dentista ou ao Posto de Saúde para tomar a vacina da gripe. De acordo com a médica psiquiátrica Tadiane Luiza Ficagna, professora da Unoesc, Médica Psiquiatra no CAPS de Seara-SC e Coordenadora do Departamento de Saúde Mental do Hospital Universitário Santa Terezinha, as pessoas precisam procurar tratamento para a cebeça assim como vão ao dentista ou ao cardiologista. Nesta entrevista ao Raízes Diário, ela fala de transtornos comuns que afligem as pessoas e orienta sobre cuidados e providências que devem ser tomadas, principalmente por causa do avanço da depressão.

RAIZES DIÁRIO – Existe um preconceito muito grande contra a psiquiatria, contra tratamentos ou diagnósticos psiquiátricos. Muita gente teme ou se envergonha ir ao um psiquiatra achando que será chamada de louca…
TADIANE FICAGNA – Com certeza você já deve ter ouvido alguém falar que psiquiatra é médico de “maluco”, de pessoas “descontroladas” e “desequilibradas”. Mas esses estereótipos não condizem com a realidade. O psiquiatra é um profissional que cuida dos portadores de transtornos mentais a nível de prevenção, tratamento e reabilitação. Esses transtornos podem ser de natureza leve, moderada ou grave e abrangem quadros clínicos que vão desde a esquizofrenia, demência e transtornos bipolares a situações mais contemporâneas, como a depressão, o estresse, dependência química e disfunções alimentares, como a bulimia e anorexia. O fato é que nem todas as pessoas possuem esse tipo de esclarecimento e, muitas vezes, deixam de procurar um especilaista por puro preconceito ou desinformação.  O principal medo das pessoas que necessitam de acompanhamento é ter seu caso associado a algum tipo de doença mental ou fraqueza. Para ele, é fundamental que os pacientes não minimizem seus problemas e procurem tratamento. O importante é não ter vergonha de buscar um especialista.  É necessário tomar consciência de que você está procurando um médico como outro qualquer.

RD – Quais são os casos comuns de tratamento psiquiátrico que as pessoas nem sabem que deveriam procurar um especialista?
TADIANE FICAGNA – A depressão é uma das doenças mais frequentes e que mais provocam alterações na rotina das pessoas. Está entre as três principais causas de incapacidade para o trabalho e o que se vê é que muitas vezes estas pessoas demoram a procurar atendimento, não reconhecem isto como doença. Também, muitas vezes, as empresas não consideram indivíduos deprimidos como doentes, acham que eles criam isso de propósito, para não trabalhar. Outra doença que muitas vezes é negligenciada pelo próprio portador são os Transtornos de Ansiedade. Pessoas com ansiedade patológica perdem muito de sua qualidade de vida e algumas vezes levam até 20 anos para procurar um psiquiatra e ter seu diagnóstico correto e tratamento adequado. Muitas vezes “pipocam” de especialidade em especialidade, até pela gama de sintomas que ansiedade pode causar como dor no peito, dor de estômago, dores de cabeça, dores musculares … e resistem em ir ao psiquiatra.

RD – Os transtornos de ansiedade estão ficando cada vez mais frequentes entre os trabalhadores e até estudantes. A que se deve isso?
TADIANE FICAGNA – Todo ser humano manifesta essas alterações de comportamento na vida. Em 80% da população mundial, elas ocorrem em níveis leves a moderados, o que é natural e em muitos casos até positivo, pois gera estímulos para resolver situações do cotidiano. Controlada, ela é um trunfo da evolução para garantir nossa sobrevivência.  O problema são os 20% restantes. Neles, o quadro aparece com intensidade e freqüência elevadas, foge do controle em várias ocasiões e assume a forma de doença. Por causa dessa abrangência impressionante, o combate à ansiedade patológica virou um dos grandes objetivos da medicina moderna. Estes transtornos possuem causas multifatoriais. Além do fator ambiental, da modernidade e da sua velocidade frenètica, também há uma grande questão genética envolvida com a ansiedade patológica.  Talvez você esteja se perguntando: se a ciência avança tanto, por que as pessoas continuam sofrendo com a ansiedade? Infelizmente ainda falta um esforço maior no campo da educação em saúde para convencer a população de que a doença não é simples. “A ansiedade não melhora sozinha”. Mas a maioria dos ansiosos só bate na porta do especialista depois de quase uma década tentando driblar o mal-estar.

RD – Então, Síndrome do Pânico é mais comum do que se pensa? 
TADIANE FICAGNA – Tipo de transtorno de ansiedade, a síndrome do pânico (que também é chamada transtorno do pânico) atinge mais de 4% da população mundial, número que se reflete também no Brasil. Em 2006 quando a grande imprensa noticiou que o furacão Gisele Bündchen, supermodel, tratava de síndrome do pânico em Nova York, muitos duvidaram, por diversos motivos. Top bem-sucedida, é linda, tem o maior cachê do mundo fashion, segundo a revista norte-americana Forbes, a vida da moça não daria margem a esse tipo de problema. Trago este exemplo para  mostrar que o mal não escolhe profissão, classe social ou estado de espírito para se manifestar. Os sintomas são um coquetel de sensações desagradáveis: taquicardia, falta de ar, muita angústia, sono sobressaltado e um turbilhão de medos infundados, principalmente de morrer, de enlouquecer e de ficar sozinho.   E mais impressionante: os piores ataques não costumam ocorrer depois de um dia estressante. Quem sofre com o pânico relata que, por vezes, as piores crises ocorreram em momentos de descanso.  A ajuda é imprescindível, por isso a necessidade de identificar a doença rapidamente. Os sintomas são motivo de vergonha para quem sofre e muitas dúvidas para familiares e amigos. O tratamento costuma unir o trabalho de psiquiatras e psicólogos. Na fase mais aguda, é necessário tomar antidepressivos para regular a ação dos neurotransmissores. A psicoterapia vai ajudar o paciente a reconhecer quando um ataque está chegando e tentar se manter mais calmo.

RD – Como devemos distinguir bipolaridade de transtorno de humor?
TADIANE FICAGNA – Na verdade, o Transtorno Afetivo Bipolar é um dos tipos de Transtornos de humor juntamente com o Transtorno Depressivo Maior, a Distima entre outros.  Os sintomas da bipolaridade apresentam sérias alterações no humor de quem é portador dessa doença e, na maioria das vezes, é muito mal diagnosticada uma vez que se confunde com depressão.  Quem deve distinguir e realizar o tratamento dos Transtornos de Humor é o médico Psiquiatra. Cerca de 1% da população mundial diagnosticada sofre desse transtorno.  É uma doença complexa, grave e que se não for bem diagnosticada por um psiquiatra pode causar sérios danos emocionais, inclusive podendo levar à morte. Todos sabem que o humor é o regulador de nossas emoções e as alterações levam a pessoa a grandes crises de euforia e depressão profunda. Nas crises de euforia, as pessoas portadoras desse transtorno ficam excitadas demais. Geralmente nessa fase, por estarem eufóricas demais, gastam muito e por gastarem exageradamente não se dão conta de como vão pagar a conta depois.  Na fase de depressão ficam apáticas, prostradas, vendo o mundo com lentes escuras e muito sofrimento, atentando na maioria das vezes contra a própria vida. É nesta fase que as pessoas sofrem muito, querem se isolar do mundo, ficam introspectivas e sem motivação para desenvolverem suas atividades. O humor pode oscilar num mesmo dia em questões de minutos levando a pessoa à ansiedade demasiada, apatia, agressividade, agitação ou uma falsa tranqüilidade. A mente dos bipolares é uma mente inquieta, seus pensamentos às vezes são confusos e distorcidos da realidade e tudo por menor que seja torna-se exacerbado. Apesar de toda essa complexidade os portadores de transtorno bipolar são pessoas criativas, inteligentes, mas que necessitam de cuidados médicos urgentes.

RD – A região de Joaçaba tem um perfil peculiar de violência. Aqui, o mais comum são crimes em família e crimes passionais. Isso pode ter a ver com a miscigenação entre poucas famílias que vieram colonizar a região? Isso pode ser por incompatibilidade sanguínea ou tem outro fator?
TADIANE FICAGNA – A questão cultural e descendência tem um fator importante no comportamento e nas emoções. Observamos que em determinadas populações há mais comumente certos tipos de comportamentos, de doenças. Por exemplo, observa-se uma diferença no número de suicídios (morte auto provocada) num mesmo estado, dependendo de sua região. E a Região de Joaçaba é uma região com altos índices. Para a violência, também há uma interferência tanto de questões culturais, descendência e também genéticas. Portanto, para podermos afirmar algo a respeito do porque a região é acometida principalmente por estes tipos de crimes necessitaria realizar um estudo mais aprofundado dos motivos, das condições e das caracteríticas das pessoas envolvidas neste tipos de violência.

RD – Quando uma pessoa precisa procurar o psiquiatra?
TADIANE FICAGNA – Considere o seguinte: qualquer sinal de palpitação ou desconforto no peito vai te mandar correndo pro consultório do cardiologista. Você não liga para o médico quando tem um resfriado, mas também não deixa de tomar remédios. O mesmo vale para dor nas costas – você espera um ou dois dias e, se ela não passar, procura ajuda. Mas, quando as pessoas sofrem com oscilações constantes das emoções, raiva e longos períodos de tristeza, quantas delas você acha que procuram um psicólogo ou psiquiatra? Pouquíssimas. Só uma pequena parte da população procura a ajuda de profissionais para lidar com questões de saúde mental. A maioria das pessoas simplesmente espera o problema passar. Se recomenda procurar um psiquiatra quando forem identificadas alterações no comportamento que comprometam o individuo no trabalho, na convivência com as pessoas e na percepção da realidade, além de mudanças repentinas de sensação, percepção, humor e capacidade de entendimento. A partir desse quadro, nós vamos conversar com os pacientes para que eles possam questionar a eles mesmos e vamos decidir juntos qual o melhor caminho a ser tomado. Segundo um relatório da Organização Mundial de Saúde (OMS) , uma pessoa entre quatro (25% da população mundial) será afetada por problemas mentais ou neurológicos em algum momento de suas vidas.

RD – A velocidade com que o século 20 se modernizou está afetando a cabeças das pessoas hoje?
TADIANE FICAGNA – A busca incansável por padrões sociais impostos pela modernidade pode levar ao comprometimento da saúde mental.  Esse fenômeno pode levar a um novo tipo de sofrimento psíquico e existencial contemporâneo e complexo, que envolve diversas dimensões, resultado de um processo histórico que previa o futuro da humanidade como uma promessa de felicidade, riqueza, justiça, paz e saúde. Essa busca excessiva pelas “promessas da modernidade” pode levar a uma série de desordens, dificuldade de assumir pensamentos complicados e a negação. Ainda, é preciso lidar também com sentimentos contraditórios, como a subjetividade de medo, insegurança, violência, ruptura e uma série de sentimentos negativos, resultado dos problemas sociais que enfrentamos. Devemos, então, elaborar novos contextos para a nossa compreensão desta época e reorganizar nossas práticas para prezar a qualidade de vida e saúde mental.

RD – E quanto às crianças? A super exposição aos games e demais equipamentos eletrônicos podem trazer sequelas mais tarde?
TADIANE FICAGNA – Os transtornos psiquiátricos são subnotificados como um todo, sobretudo quando eles se manifestam na infância e na adolescência. Eu poderia dizer que se trata apenas da falta de psiquiatras especializados. Ainda existe um enorme preconceito da sociedade de maneira geral – o estigma de que doença psiquiátrica é sinal de loucura é muito presente ainda. As crianças e adolescentes são vítimas de inúmeros transtornos mentais, inclusive o suicídio. Quanto a questão da superexposição e super estimulação das crianças, o que se tem visto é que todo e qualquer exagero pode sim causar transtornos. As crianças devem ser tratadas e ter responsabilidades de criança e o que se enxerga muitas vezes é uma “adultização” delas.

 

 

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